A seca, os mananciais e os eternos erros!

Não é nenhuma novidade, todos sabem que as secas do Nordeste são periódicas, previsíveis e, enquanto fenômeno natural, não há como combatê-las. Porém, os seus efeitos podem ser enfrentados ou reduzidos com tecnologias apropriadas, tornando possível a convivência do homem com o meio árido. Entende-se que tecnologias agrícolas para o Semiárido como aquelas fixadoras do homem no campo.

Por que não se tirar proveito do que há de mais vantajoso no Semiárido?  O semiárido tem aproximadamente 3000 horas de sol por ano – e com técnicas avançadas de irrigação, possibilita até 3 colheitas por ano, em algumas culturas. A uva é um bom exemplo de produção nas margens do São Francisco. O bom uso das águas das represas, seria uma alternativa mais coerente na atual conjuntura em detrimento da alternativa de transposição das águas do São Francisco.

Por que não darmos a devida atenção e importância a outra alternativa produtiva para o semiárido que é o setor extrativista vegetal? Temos no Semiárido uma riqueza enorme de plantas adaptadas ao ambiente seco que poderiam ser economicamente exploradas. Citamos alguns exemplos: como produtoras de óleos, Catolé, Faveleira, Marmeleiro e Oiticicas; de látex, Pinhão, Maniçoba e algaroba; de ceras, Carnaúba; de fibras, Bromeliaceas (sisal, macambira, entre outras); medicinais, Babosa, Juazeiro; frutíferas, umbuzeiro, cajazeiras, cajaraneira e as forrageiras de um modo geral. Temos um número de plantas enorme e praticamente não se conhece nada sobre elas. Ações de governo, nesse sentido, seriam importantíssimas.

A mais importante das alternativas para a região seca, principalmente por se tratar de uma região carente em proteínas seria a pecuária. Ações realizadas com sucesso no Cariri paraibano, especificamente no Município de Taperoá, têm demonstrado que o cultivo da palma e a fenação de forrageiras resistentes à seca como é o caso do capim buffel e do urocloa, aliados a criação de um gado igualmente resistente e de dupla aptidão (carne e laticínios) a exemplo do Guzerá e do Sindi oriundos dos desertos da Índia e de pequenos ruminantes melhorados geneticamente (caprinos e ovinos), têm possibilitado a sobrevivência digna do homem na região. A piscicultura é outra alternativa que poderá ser desenvolvida através da utilização do potencial de açudes já instalado. Ações governamentais que deem suporte aos produtores, sejam eles pequenos ou grandes, principalmente no setor creditício, são importantes e oportunas.

A seca no Nordeste é um problema sócio-político e não climático, pois já existem tecnologias capazes de garantir o sucesso da atividade agropecuária na regiões semiáridas. Mas o que se criou foi uma indústria da seca que traz lucros aos grandes proprietários e mantém alguns no poder, em detrimento da grande massa da população

O Nordeste brasileiro é detentor do maior volume de água represado em regiões semiáridas do mundo. São 37 bilhões de metros cúbicos, estocados em cerca de 70 mil represas, além da água subterrânea. A água existe, todavia o que falta aos nordestinos é uma política coerente de gestão e distribuição desses volumes, para ao atendimento de suas necessidades básicas.

O problema (que não é novo) não é de falta de água, e sim de gestão e distribuição, é falta de decisões, de recursos e. principalmente, de “vergonha na cara”.  Enfim, de cidadania. E não causada apenas pelo velho coronelismo, que foi travestido de modernidade, e ainda assola a região. Mas pelas novas políticas de desenvolvimento, produzidas sob a justificativa do progresso e da renovação, mas que mantém tudo como sempre foi.

Entendemos que os políticos, isso em regra geral, costumam fazer política com o sofrimento e a miséria do povo. As alternativas de produção existem e não são implementadas porque, na verdade, tem faltado aos administradores públicos a indispensável vontade política para definir ações estruturadoras no semiárido. E tem faltado porque concretizá-la significa contrariar interesses, muitas vezes situados na base de apoio parlamentar do governo. É exatamente aí onde está a nossa verdadeira seca.

Uma prova disso, é que alguns mananciais quase secaram, ou alguns secaram antes da atual quadra invernosa e não houve nenhuma ação no que tange ao desassoreamento destes, tomando como exemplo, o açude de Pilões no Município de São João do Rio do Peixe, que está totalmente assoreado, onde podemos notar bancos de areia em vários pontos. Por que não recuperaram a parede do açude de Engenheiro Ávidos, que apresentam verdadeiras crateras? O próprio açude de Pilões, apresenta no seu vertedouro, grandes rachaduras, que são notadas quando este “sangra”. Não se fez nada nesse sentido, nenhum parlamentar apresentou alguma emenda ao orçamento, ou algum projeto ou se apresentou, a burocracia tratou de “capengar” ou a verba não chegou ao verdadeiro destino.

Diante do exposto, o que se conclui é que o problema não é a seca e sim, a aridez mental. Está mais do que na hora de acordarmos deste sono eterno e sairmos do “berço esplêndido”. As eleições vêm aí. Acorda, povo!

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