Drama pessoal levou advogado a largar carreira para criar a 1ª maconha medicinal brasileira

Caio Abreu com a mulher e os filhos (à esq.), e com a mãe e a irmã (à dir.): episódio de câncer na família chamou atenção de advogado sobre potencial medicinal da maconha (Arquivo pessoal)

Aos 35 anos, Caio Abreu tinha a vida profissional ganha: passagem por grandes escritórios de advocacia, faturamento alto na própria empresa e dois filhos pequenos crescendo com conforto ao lado da mulher em São Paulo.

Ele resolveu, contudo, largar a carreira e se reinventar no mundo dos negócios com uma missão ousada: criar a primeira indústria brasileira de medicamentos à base de maconha.

O projeto não está para brincadeira: reúne investidores, cientistas de ponta e parceiros em países que já regulamentaram a Cannabis medicinal, como Canadá e Holanda.

Já possui autorização da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para importar 20 kg de matéria-prima e desenvolver o primeiro “candidato a medicamento”, que ainda precisará passar por testes em humanos para uma eventual liberação comercial.

A empresa tenta avançar com cautela, já que o uso medicinal da maconha ainda dá seus primeiros passos legais no Brasil.

A empreitada de Abreu mira, naturalmente, o potencial econômico desse mercado, que já movimenta bilhões de dólares em países como EUA, Reino Unido, Israel, Canadá e França.

Primeiro alerta

Foi um drama pessoal, contudo, que chamou a atenção do advogado para o potencial terapêutico da planta.

Em 2005, Sueli, mãe dele, começou a reclamar de dores na base da coluna. Passou por um sem-número de médicos até uma amiga enfermeira sugerir um proctologista, que detectou um agressivo câncer no reto.

Na mesma semana, Abreu hospedou a mãe em sua casa, em São Paulo, para assisti-la durante o tratamento duro que viria pela frente.

O câncer atingiu o útero e passou a provocar dores excruciantes – causadas pela compressão dos nervos pelo tumor -, amenizadas à base de morfina.

Foi quando Sueli, uma pedagoga que ganhara a vida em agências de publicidade, quis tentar uma alternativa – sabe-se que o efeito da quimio pode ser intolerável para certas pessoas, com prejuízo ao tratamento.

Abreu se desdobrou e conseguiu maconha para a mãe – recorrendo, claro, ao mercado ilegal. O uso, diz o filho, ajudou a minimizar a dor da compressão dos nervos pelo tumor e efeitos da quimioterapia, como náuseas, vômitos e falta de apetite.

“Aquela foi a semente que me despertou para o fato de que aquilo funcionava. Hoje acredito que poucos usos da Cannabis são efetivamente recreativos (dada a variedade de usos medicinais)”, afirma ele, que prefere sempre citar a planta pelo nome científico.

Sueli sucumbiu ao câncer em dezembro de 2009, aos 58 anos. Desde então o filho conheceu sua atual mulher, teve dois filhos e continuou a tocar seu escritório de direito societário e mercado de capitais, que lhe rendeu uma vida confortável em um bairro nobre de São Paulo.

Oportunidade

Foi aí que Abreu, hoje com 37 anos, viu uma oportunidade. Fechou o escritório de advocacia e saiu em busca de parceiros, consultores e colaboradores para a empreitada.

“Quando comecei a pensar em trabalhar com isso, vi que não existia uma empresa fazendo extrato (de componentes da maconha) de forma farmacêutica. Não que os óleos (importados) que estejam chegando não ajudem – ainda bem que há algo para crianças tomarem -, mas é importante saber o que está usando quando você vai se tratar de qualquer coisa”, afirma.

Um passo chave nesse processo foi atrair uma das principais empresas internacionais de maconha medicinal, a Canopy Growth Corp.

A Canopy é a maior firma licenciada para produção de Cannabis do Canadá, país em que o consumo de maconha receitada por médicos é legal desde 2001.

Por meio da Bedrocan, subsidiária da Canopy especializada em produção para uso terapêutico, fornecerá as flores de Cannabis para o desenvolvimento do primeiro remédio planejado pela empresa de Abreu, batizada Entourage Phytolab.

O primeiro objetivo da Entourage é desenvolver, testar e aprovar um extrato fitoterápico à base de maconha, com presença dos dois principais compostos: CBD (não psicotrópico) e THC (psicotrópico).

Próximos passos

A Entourage deverá receber as flores in natura de Cannabis em outubro, e a extração dos compostos será feita usando tecnologia brasileira numa universidade pública de ponta – Abreu prefere ainda não mencionar o nome da instituição.

Espera realizar ensaios clínicos até meados de 2017 e começar a vender ao Brasil no mesmo ano.

O primeiro extrato deverá ter várias formas de apresentação, como uma específica para crianças e comprimidos para adultos. Um segundo produto deverá ser um extrato com maior concentração de THC.

Em um segundo momento, a empresa também espera ter autorização para produzir a Cannabis no Brasil.

Um desafio chave no processo será o diálogo com a classe médica.

“A proposta é construir um diálogo dentro dos padrões que médicos já trabalham com quaisquer medicamentos: doses, efeitos colaterais, demonstrar todas informações técnicas para que possam trabalhar”, afirma Abreu.

“Médicos não têm preconceito, o que importa é a pesquisa estruturada, até para poderem entender porque um remédio pode não ir bem. Médicos que tratam dor, por exemplo, têm limitação no arsenal (de tratamentos disponíveis), e cannabis é uma alternativa. Muitos médicos não veem a hora de poder prescrever”, diz, confiante, o empresário.

Thiago Guimarães – @thiaguima da BBC Brasil em Londres

 

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