Emblemática e imponente, estátua do Padre Cícero completa 50 anos

FOTO: GUSTAVO PELLIZZON

Inaugurado em 1969, o monumento de 27 metros edificados na Colina do Horto em Juazeiro do Norte, no Cariri, já foi o segundo maior do Brasil. O local que se tornou o símbolo dos romeiros, atrais milhões de devotos todos os anos.

A faixa 1 do Lado B do disco “Forró de Cabo a Rabo” (1986), de Luiz Gonzaga, apresentou o verso: “Olha lá, no alto do Horto, ele está vivo, padre não está morto”. A música “Viva Meu Padim” faz referência à estátua de 27 metros do Padre Cícero que se tornou cartão-postal de Juazeiro do Norte. Hoje, dia 1º de novembro, o monumento completa 50 anos de inauguração.

O projeto, que começou “por acaso”, se tornou símbolo da peregrinação da fé romeira e hoje é responsável por atrair, em média, 2,5 milhões de visitantes por ano à cidade. A presença do religioso, fundador da 3ª maior cidade do Estado, é notável no Município. Em cada palmo da cidade, o santo popular dos cearenses está presente. Da porta das lojas aos altares de casa. Se não bastasse isso, numa altitude de aproximadamente 500 metros, sua imagem de concreto pode ser vista em quase todo o território do Município. É assim que, na visão dos católicos, a estátua protege os “romeiros do Norte”.

Progresso

A história por trás da construção da estátua do Padre Cícero, que já foi a segunda maior do País – e hoje ocupa a 5ª posição – , passa pelo próprio sacerdote. No fim do século XIX, já com suas ordens suspensas por causa do episódio conhecido como o “Milagre da Hóstia”, ele começou a frequentar a Colina do Horto, antigamente chamada de “Serra do Catolé”. Por lá fazia seu retiro espiritual e idealizou a construção de uma igreja para Bom Jesus do Horto. Parte do templo começou a ser construída, mas em 1904 foi interrompida por ordens da Diocese de Fortaleza. Naturalmente, com o abandono, a edificação foi ruindo até ser demolida, totalmente, no fim da década de 1930, após a morte do “padrinho”.

Os romeiros foram se apegando ao Horto pelo projeto do sacerdote de construir a igreja, mas também pelo chamado “pé de tambor”, um pé de Timbaúba onde, supostamente, era um dos locais de refúgio e meditação do Padre Cícero. Tudo isso mudou em 1967, com a construção de uma antena de televisão exatamente onde ficava a árvore. “As pessoas se revoltaram. No Horto já havia sido profanado outro símbolo de fé, que era a igreja, que foi proibida e as ruínas destruídas”, conta a historiadora e pesquisadora Amanda Teixeira.

A resposta da Prefeitura de Juazeiro do Norte, à época gerida pelo médico Mauro Sampaio, veio rapidamente: a construção de uma estátua do Padre Cícero na Colina do Horto, onde poderia ser vista por todas as pessoas da cidade. O jornalista e escritor Aldemir Sobreira, falecido há três anos, contava que, a princípio, tentaram encontrar um escultor em Fortaleza, mas procura foi em vão.

Outro dia, o mesmo Aldemir visitou uma exposição de artes plásticas na Faculdade de Filosofia do Crato – atual Universidade Regional do Cariri – , onde conheceu o artista plástico pernambucano Armando Lacerda, que participava do evento, e, na época, era representante comercial da Cinzano. Vendo seu talento, com uma das estátuas premiadas naquele dia, não titubeou:

– Você seria capaz de construir um monumento? – perguntou o jornalista.

– É minha praia. – respondeu Armando, tirando do bolso do paletó um maço de fotos de outros trabalhos.

A Prefeitura já tinha um projeto de monumento de sete metros de altura, fora a base. Porém, o escultor optou por construir uma estátua de 12 metros. Um galpão foi montado no antigo armazém de uma usina de algodão, na esquina das ruas São Paulo e São Francisco. Durante a modelagem, o próprio Armando decidiu aumentar o tamanho da estátua para 17 metros. Os cálculos pelos engenheiros foram feitos e a proposta foi aprovada.

A construção

De forma bem artesanal, a estátua do Padre Cícero foi construída por muitas mãos. Um destes pares é do aposentado Severino Antônio Santana, 76, que na época tinha entre 15 e 16 anos. Morador da Rua do Horto, que na época já havia um número razoável de imóveis, ele foi contratado pela Prefeitura de Juazeiro do Norte. “O prefeito veio e pediu para arrumar um pessoal daqui para trabalhar. O resto do pessoal, carpinteiros, engenheiros, pedreiro, essas coisas, veio da rua”, conta. O valor pago para cada servente era 50 cruzeiros novos por semana.

A primeira etapa foi planear o terreno. Depois, foram cavados os alicerces, colocado os andaimes de madeira e as ferragens das colunas. Um molde de gesso foi feito no ateliê, no Centro da cidade, para ganhar forma em concreto. Como um quebra-cabeças, as peças eram muito pesadas e, por isso, foram elevadas por uma espécie de carretel, puxadas por alguns cabos de aço. “Foi feita a base, o pé e, depois, a estátua”, explica Severino. A cabeça do santo foi encaixada por último.

A obra durou aproximadamente dois anos. “Só teve um acidente e foi por causa das armações de madeira. Ela nunca aconteceu de quebrar, mas um dia torou. Um senhor caiu, quebrou duas costelas e o braço, e não veio trabalhar mais”, lembra o aposentado.

Severino se sente orgulhoso de ter participado da construção da estátua, pois, passou quase toda sua vida ao lado do monumento. “O cara trabalhar para o Padre Cícero, fico até emocionado”, confessa.

Golpes e inauguração

Na época da construção, os jornais noticiaram que havia pessoas peregrinando pelo interior do Nordeste pedindo dinheiro com a justificativa que estavam angariando recursos para a construção da estátua. Por causa da repercussão, o prefeito Mauro Sampaio teve que vir a público e lançar uma nota nos periódicos explicando que a obra era do Município e que não dessem dinheiro aos golpistas.

O médico aproveitava para ressaltar que o projeto tinha como objetivo estimular o turismo em Juazeiro do Norte. “Ele queria fugir da ideia de romaria, de uma população muito pobre, que vinha a Juazeiro pedir a bênção e realizar práticas diversas de fé. Esse discurso era muito forte, dizendo até que a estrutura do horto ia contar com praça, playground, várias atrações. Seria um complexo turístico”, explica Amanda Teixeira.

FOTO: GUSTAVO PELLIZZON

A data de entrega da obra foi escolhida, justamente, pelo período da Romaria de Finados, que já se apresentava como o mais popular evento religioso de Juazeiro do Norte. “Não havia hospedagem para todas as pessoas. Elas ficaram acampadas. Embora disseram que era um empreendimento turístico, a cidade não estava preparada”, ressalta Amanda.

Como o acesso à Colina do Horto ainda era difícil, a cerimônia de inauguração aconteceu aos pés da Basílica de Nossa Senhora das Dores. Grandes veículos de comunicação de todo o País estiveram presentes. Os jornais diziam que houve entre 100 mil a 200 mil pessoas na ocasião. As luzes da cidade foram apagadas por 30 segundos para, em seguida, os 24 refletores iluminarem a estátua.

Rivalidade

O professor e memorialista Renato Casimiro conta que, no dia da inauguração, apareceram pelo chão da Basílica alguns pedacinhos de papel, contendo um versinho que dizia o seguinte: “Se chifre for baioneta e estátua avião, Juazeiro está preparada para defender a nação”.

A provocação teria partido de habitantes do Crato. “Nessa época, (os cratenses) já estavam vendo Juazeiro ‘passar a perna’. A cidade cresceu mais. Vêm indústrias, conjuntos habitacionais, estação de televisão, nosso próprio aeroporto. Era uma fase bastante otimista”, lembra.

 

Diário do Nordeste

Por Antonio Rodrigues, regiao@verdesmares.com.br 05:30 / 01 de Novembro de 2019

 

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