O Racismo Social

O racismo é a discriminação social que tem por base um conjunto de julgamentos pré-concebidos que avaliam as pessoas de acordo com suas características físicas, em especial a cor da pele. Baseada na preconceituosa idéia de superioridade de certas etnias, tal forma de segregação está impregnada na sociedade brasileira e acontece nas mais diversas situações.
A discriminação racista é considerada crime pela Constituição Federal que apresenta diversas formas de punição para estes casos. Posto que o crime representa o ódio ou aversão a todo um grupo, o racismo é um delito de ordem coletiva, que ataca não somente a vítima, mas todo o ideal de dignidade humana.

A genética comprovou que as diferenças icônicas das chamadas “raças” humanas são características físicas superficiais, que dependem de parcela ínfima dos 35 mil genes estimados do genoma humano. A cor da pele, uma adaptação evolutiva aos níveis de radiação ultravioleta vigentes em diferentes áreas do mundo, expressa apenas quatro a seis genes! Nas palavras do geneticista Sérgio Pena: “O fato assim cientificamente comprovado da inexistência das ‘raças’ deve ser absorvido pela sociedade e incorporado às suas convicções e atitudes morais Uma postura coerente e desejável seria a construção de uma sociedade desracializada, na qual a singularidade do indivíduo seja valorizada e celebrada. Temos de assimilar a noção de que a única divisão biologicamente coerente da espécie humana é em bilhões de indivíduos, e não em um punhado de ‘raças’.”

O fenômeno, cujas origens são complexas, ocorre com maior ou menor intensidade em todas as etnias e em todos os países e suas origens são muito complexas. Quando o Japão, por exemplo, conseguiu, na primeira metade do século XX, um desenvolvimento econômico comparável ao da Europa, surgiu no seio do povo japonês uma ideologia racista muito semelhante à que justificava o colonialismo europeu.

No Brasil, o racismo é considerado crime desde o ano de 1989, com a promulgação da Lei Nº 7.716, de 05 de janeiro de 1989. No entanto, em todas as camadas sociais observa-se a presença das mais diversas formas de discriminação. Algumas delas silenciosas, outras mascaradas em brincadeiras ou comentários aparentemente inocentes, mas que insistem em permear o imaginário das pessoas.

O racismo pode estar presente em qualquer tipo de ambiente: no trabalho, na rua ou até mesmo em meio a pessoas próximas. Por isso, torna-se importante salientar que todas as formas de ocorrência do preconceito devem ser notificadas, sejam elas nítidas ou discretas. Além de ser um direito, é dever de todo cidadão denunciar esse tipo de ocorrência. Através da denúncia protege-se não apenas uma vítima, mas todo um grupo que futuramente poderia ser atacado.

Em dias de apoteose para a consciência negra, com Barack Obama alcançando a presidência da nação mais poderosa do planeta, o mundo vem sendo convidado a debater e criar esperanças pela queda do racismo branco contra afrodescendentes. Bem que esse êxito do havaiano poderia significar um sinal dessa enormemente desejável tendência no mundo, mas, pelo menos aqui no Brasil, se andarmos um pouco pelas ruas, não é isso que se percebe.

Detalhes de segregação social entre a maioria dos brancos e a dos negros no Brasil podem ser encontrados aos montes por aí, e muito freqüentemente geram opiniões absurdas como “nêgo é pobre porque é nêgo mesmo”, as quais põem em séria dúvida a crença de que “o brasileiro não é racista”. Vez por outra a idéia das cotas reaparece na roda de conversas, como se as ditas cotas resolvessem tudo em vez de apenas dar a impressão forçada de equalização sócio-racial.

Há-se de perceber que o racismo social no país vai muito além de cotas. É, como já se diz muito, um processo histórico de longas datas que medidas paliativas como destinar tal porcentagem de vagas em alguma oportunidade estão bem longe de esboçar um conserto — mas apenas forçam uma aparência de progresso no ajuste das diferenças — e que requer ainda muito debate para elaboração de políticas. Não há uma fórmula mágica para balancear o contraste entre a notada maioria branca socialmente favorecida e a negra em desvantagem, mas algo que daria bem certo, embora pareça utopia no Brasil, seria acolher e comprometer-se politicamente com as necessidades de todos aqueles das comunidades humildes. Isso favoreceria e elevaria a maioria negra cujas carências atormentam aqueles que desejariam que a distribuição sócio-racial fosse meramente aleatória.

Aí sim que o nosso racismo social, como o fato de a maioria dos trabalhadores informais possuírem pele muito escura, seria abrandado e a distribuição sócio-racial da população estaria mais próxima da igualdade.

Em nível institucional, os governos, tanto Federal como dos estados, vêm desenvolvendo programas de orientação e combate à segregação racial. Contudo tais políticas públicas não têm alcançado o âmago do problema, sobretudo porque vivenciamos no Brasil um racismo cultural, herdado do período colonial e que persiste em continuar coexistindo em nossa sociedade, como uma triste lembrança de um período sombrio de nossa história.

A educação voltada para o respeito à pessoa humana, e a inclusão das chamadas “minorias”, que a cada dia se mostram muito mais presentes, pode ser a chave para que em médio prazo possamos de fato superar as diferenças de credo, origem social, cor da pele e opção sexual, elevando nossa sociedade a um patamar de verdadeira civilização.

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