O radiojornalismo ontem e hoje

Lembro-me da época em que radio jornalismo era levado a sério;

para se apresentar um noticiário era necessária uma verdadeira produção. Primeiro acontecia às reuniões de pauta, onde o editor reunia a equipe de produção, formado por: redatores, repórteres, apresentadores (locutores), técnicos, sonoplastas e montadores de “tapes”. Nessas reuniões eram definidos “o quer fazer jornalístico” que consistiam em definir as notícias que seriam veiculadas, as entrevistas gravadas e “ao vivo” e o assunto mais palpitante do momento que se transformaria na principal notícia.

Lembro-me que o repórter já saia com a pauta da entrevista na sua prancheta e quando o repórter era bom, “desenvolvia a pauta” de acordo com a deixa do entrevistado e ás vezes saía as “perguntas de gavetas” que em algumas ocasiões, deixava o entrevistado de “saia curta”, isto é, se não tivesse habilidades para se sair. O grande Roberto D’ávila (o melhor entrevistador do Brasil) em uma de suas palestras comparou uma entrevista a uma partida de futebol: “quando o juiz aparece, a partida não presta da mesma forma é uma entrevista, quando o entrevistador aparece, a entrevista não presta. O que deve aparecer numa entrevista é o tema, para isso cabe uma boa pesquisa e se alguém tem que aparecer é o entrevistado”. Como é chato ouvi o entrevistador querendo aparecer, crendo que está abafando, está é estragando a entrevista.

Lembro-me que saiam, às vezes, dois ou mais repórteres em busca da notícia. Quantas vezes um mesmo repórter chegava com mais de uma notícia ou reportagem. E ainda tinha a unidade móvel com um reporte habilidoso num link “ao vivo”, fazendo valer a velocidade do rádio.

Lembro-me do “montador de tape” que editava toda a entrevista e juntava-as numa sequencia dinâmica e naquela época não existia o “milagroso” SAUND FORGE, era tudo de acordo com a sensibilidade jornalística e sonora daquele profissional.

Lembro-me das redações impecáveis e perfeito agrupamento de notícias nas folhas de redação, sim aquela folha que vinha com uma linha vertical dividindo o campo da notícia e uma borda na lateral direita onde geralmente se escrevia algo para chamar a atenção dos apresentadores. Essa folha da redação era redigida em quatro cópias, para isso, se utilizava papel carbono, onde cada apresentador recebia uma cópia, outra era entregue ao sonoplasta para os “efeitos sono plástico” e uma quarta cópia ficava com o editor para eventuais e correções e arquivo. Tudo isso na velha máquina de datilografia e sem direito de errar, não existia computadores e, consequentimente, editores de textos.

Hoje, um programa de radio jornalismo consiste apenas em apresentar “picuinhas”, onde um dos apresentadores apresenta um editorial verbalizado, geralmente, com termos piegas, malhando o pau em alguém ou elogiando outro, dependendo do “lado”. Após o longo “blá, blá, blá” abrem-se os telefones para os ouvintes e aí a pieguice impera. Passa-se o tempo todo só nisso.

Rádio é um veículo de comunicação de um alcance extraordinário, o rádio penetra onde a televisão e a internet não alcançam. Deveria se usar o rádio como um verdadeiro formador de opinião e não como um veículo de manipulação de massas.

Por: Afonso Júnior

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