Otorrinolaringologista explica por que uso de cotonetes pode prejudicar saúde

Bárbara Belmont, otorrinolaringologista com especialidade em ouvidos. (Foto: arquivo pessoal)

Utilizar hastes flexíveis (cotonetes) diariamente virou uma prática comum através do processo de industrialização. Com origem em 1920, a ferramenta para limpar os ouvidos se tornou conhecida por ser rápida, eficaz, barata e usufruída como critério de higiene pessoal. Mas, de acordo com médicos, a prática não é considerada saudável.

Ao Portal Correio, a otorrinolaringologista especialista em ouvidos, Bárbara Belmont, formada pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), explicou qual a importância dos cuidados para a saúde desta área corporal e como deve ocorrer a utilização das hastes flexíveis.

Segundo ela, o cerúmen (cera) é produzido na porção mais externa do meato acústico externo, popularmente conhecido como ‘canal do ouvido’, de forma que é fundamental para a saúde das orelhas, mantendo essa região lubrificada. Além disso, também contribui para manter o Potencial Hidrogeniônico (pH) adequado, protegendo contra lesões causadas por insetos e corpos estranhos que possam penetrar ou ser inseridos na orelha.

“O cerúmen evita lesões em estruturas muito importantes para nossa audição, como o tímpano. Possui ainda, em sua composição, lisozima, uma enzima que dificulta o crescimento de bactérias e fungos nas orelhas. Portanto, diante de todas essas propriedades protetoras, o cerúmen não deve ser rotineiramente removido,” ela conta.

De acordo com a médica, é comum ter relatos de pacientes que apresentam cerúmen impactado (rolhas de cera) em decorrência do uso cotidiano de cotonetes. Sendo frequente, então, em consultórios e serviços de urgência, pessoas que apresentem casos de otites externas agudas decorrentes do uso de cotonetes.

“Nestas situações, os pacientes costumam se queixar de otalgia (dor de ouvido), sensação de que estão escutando menos que o habitual e otorreia (secreção na orelha). Há ainda casos de perfuração da membrana timpânica associados ao uso de hastes,” esclarece.

Dessa forma, o uso de cotonetes não é recomendado. Conforme a médica, a Academia Americana de Otorrinolaringologia orienta que não se introduza nada menor que os próprios cotovelos nas orelhas. Ela também enfatiza que a cera é, antes de tudo, ‘uma aliada no cuidado da saúde da orelha’, devendo ser removida apenas quando causar sintomas, e por um profissional habilitado, com a utilização do material adequado.

“Exceto em situações em que seu excesso promova sintomas, como dificuldade de audição, zumbido, dor ou coceira nas orelhas. Nestes casos, a remoção nunca deve ser feita em casa. O paciente deve ser avaliado por um Otorrinolaringologista, que o examinará e removerá a cera, caso necessário.”

Limpeza correta

Ainda conforme a especialista, ao invés de remover a cera, as hastes costumam apenas introduzi-la na parte mais profunda do canal, que é mais estreita e não possui pelos. Dessa maneira, forma-se uma ‘rolha ou tampão’, prejudicando ainda mais o paciente por impedir a eliminação espontânea da cera, que ocorre por um mecanismo de autolimpeza.

Logo, a otorrinolaringologista orienta os cuidados na hora de fazer a limpeza com o uso do cotonete: “aconselhamos que as hastes flexíveis sejam usadas apenas na região do pavilhão auricular, a porção da orelha em forma de concha, onde encontramos curvaturas.”

Para finalizar, ela também destacou a possibilidade de efetivar o processo de remoção do cerúmen em prol da higiene, descartando o uso do cotonete. “Por outro lado, caso o paciente deseje limpar a abertura do ‘canal do ouvido’, deve fazê-lo apenas com uma toalha após o banho, sem introduzir nenhum instrumento dentro do mesmo”.

 

*Mayara Oliveira, especial para o Portal Correio

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