Seca ou Aridez Mental?

As principais causas da seca do nordeste são naturais. A região está localizada numa área em que as chuvas ocorrem poucas vezes durante o ano. Esta área recebe pouca influência de massas de ar úmidas e frias vindas do sul. Logo, permanece durante muito tempo, no sertão nordestino, uma massa de ar quente e seca, não gerando precipitações pluviométricas (chuvas). O desmatamento na região da Zona da Mata também contribui para o aumento da temperatura na região do sertão nordestino.

A seca, além de ser um problema climático, é uma situação que gera dificuldades sociais para as pessoas que habitam a região. Com a falta de água, torna-se difícil o desenvolvimento da agricultura e a criação de animais. Desta forma, a seca provoca a falta de recursos econômicos, gerando fome e miséria no sertão nordestino. Muitas vezes, as pessoas precisam andar durante horas, sob sol e calor forte, para pegar água, muitas vezes suja e contaminada. Com uma alimentação precária e consumo de água de péssima qualidade, os habitantes do sertão nordestino acabam vítimas de muitas doenças.

O desemprego nesta região também é muito elevado, provocando o êxodo rural (saída das pessoas do campo em direção as cidades). Muitas habitantes fogem da seca em busca de melhores condições de vida nas cidades.

Estas regiões ficam na dependência de ações públicas assistencialistas que nem sempre funcionam e, mesmo quando funcionam, não gera condições para um desenvolvimento sustentável da região.

A seca que atingiu o nordeste desde o começo de 2012 está sendo a pior dos últimos 30 anos. A seca trouxe muito prejuízo para as principais fontes de renda da região: pecuária e agricultura de milho e feijão.

Já é mais do que sabido que as secas do Nordeste são periódicas e, enquanto fenômeno natural, não há como combatê-las. Todavia, os seus efeitos podem ser enfrentados com tecnologias apropriadas, tornando possível a convivência do homem com o meio árido.

Algumas ações seriam necessárias por parte da administração pública visando promover uma melhor convivência do homem nordestino com o fenômeno da seca. Construções de mais açudes, porque os atuais cumprem com o papel de fornecer água para os perímetros irrigados e até certo ponto, perenizar rios e abastecimento d’água de alguns municípios. O grande problema é a irrigação arcaica praticadas nesses perímetros irrigados, acarretando gastos excessivos de água e salinizando o solo. Outras ações seriam construções de cisternas, de barragens subterrâneas, implantação de um sistema de desenvolvimento sustentável na região, para que as pessoas não necessitem de sempre de ações assistencialistas do governo e incentivo público à agricultura adaptada ao clima e solo da região, com sistemas de irrigação.

Além é claro, da tão sonhada Transposição do São Francisco.

Quando tratamos de tecnologias agrícolas para o Semi-árido – entendidas aqui como aquelas fixadoras do homem no campo – temos que ter em mente um ponto que é fundamental: a exploração, e com muita competência, da capacidade de suporte da região. Neste aspecto somos otimistas.

Outro aspecto importante e merecedor de atenção como alternativa produtiva no Semi-árido é o setor extrativista vegetal. Temos no Semi-árido uma riqueza enorme de plantas adaptadas ao ambiente seco que poderiam ser economicamente exploradas. Citamos alguns exemplos: como produtoras de óleos, Catolé, Faveleira, Marmeleiro e Oiticica; de látex, Pinhão, Maniçoba; de ceras, Carnaúba; de fibras, Bromeliaceas; medicinais, Babosa, Juazeiro; frutíferas, Imbuzeiro e as forrageiras de um modo geral. Temos um número de plantas enorme e praticamente não se conhece nada sobre elas. Ações de governo, nesse sentido, seriam importantíssimas.

A pecuária talvez seja a mais importante das alternativas para a região seca, principalmente por se tratar de uma região carente em proteína. Ações realizadas com sucesso no Cariri paraibano, especificamente no Município de Taperoá, têm demonstrado que o cultivo da palma e a fenação de forrageiras resistentes à seca como é o caso do capim buffel e do urocloa, aliados a criação de um gado igualmente resistente e de dupla aptidão (carne e laticínios) a exemplo do Guzerá e do Sindi oriundos dos desertos da Índia e de pequenos ruminantes melhorados geneticamente (caprinos e ovinos), têm possibilitado a sobrevivência digna do homem na região. A piscicultura é outra alternativa que poderá ser desenvolvida através da utilização do potencial de açudes já instalado. Ações governamentais que dêem suporte aos produtores sejam eles pequenos ou grandes, principalmente no setor creditício, são importantes e oportunas.

A experiência mostra que os políticos, com raríssimas exceções, costumam fazer política com o sofrimento e a miséria do povo. As alternativas de produção existem e não são implementadas porque, na verdade, tem faltado aos administradores públicos a indispensável vontade política para definir ações estruturadoras no semi-árido. E tem faltado porque concretizá-la significa contrariar interesses, muitas vezes situados na base de apoio parlamentar do governo. É exatamente aí onde está a nossa verdadeira seca. A verdadeira seca não é simplesmente uma seca e sim, uma aridez mental, que torna o homem nordestino incapaz de reagir, usando principalmente, a sua maior arma, o voto. A aridez mental é tão gritante que o homem nordestino não consegue absorver tecnologias adaptáveis, preferem e insistem em tecnologias arcaicas e impostas por técnicos irresponsáveis que trabalham para os trustes internacionais.

Pior e mais assolador do que a seca é a aridez mental, que promove uma total dependência de muitos nordestinos a um sistema opressor, formando pessoas incapazes de lutar por um nordeste auto-sustentável e produtivo, capaz de oferecer a todos uma boa qualidade de vida.

 

Lembremos da famosa música de Luiz Gonzaga e Zé Dantas:

 

Seu Doutor uma esmola

para o homem que é são:

Ou me mata de vergonha!

Ou vicia o cidadão!

 

Por: Afonso Jr.

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