Selfie desmoraliza as bacanas

As bacanas irradiam nas colunas sociais imagem de felicidade e espalham charme. Beleza, nem sempre. Homens também enfeitam as páginas, compondo o quadro quase perfeito da riqueza, do prazer, da elegância, da convivência em sociedade. Os dentes ficam à mostra, em sorriso mais enganador do que cartaz eleitoral de candidato! Ah, o sorriso… Nada de língua. No passado, alguns espertos jornalistas amealhavam bons trocados ministrando “cursinhos” às madames, em especial às “emergentes”, pouco afeitas a ambiente sofisticado: assim, madame, abra mais os lábios, isso, isso, diga xis, xis, assim está bom, ótimo, ótimo, perfeito! Dias depois, a foto estampada no jornal era a prova de que a lição fora assimilada. E a conta bancária do colunista social ganhava mais robustez, o gerente do banco arreganhando os dentes à vista das aplicações financeiras…

Mas isso é coisa do passado.

De tanto ministrar aulas, a foto do xis para enfeitar as páginas de frivolidade banalizou-se na padronização vulgar. Tudo igual. Fuleiragem. A beleza natural das realmente belas confunde-se com a feiura disfarçada, quando nada para brilhar nas colunas sociais. O importante é sair bem na foto, a satisfação alargada no rosto, os problemas emocionais, financeiros, existenciais jogados às favas, tudo desmanchado em riso. Riso falso, é claro.

Não quero ser injusto com os cronistas sociais.

Nem sarcástico em demasia. No meio da profusão exibicionista de rostos, decotes, vestidos, saias e blusas, exuberâncias à mostra, brincos, pulseiras; ternos, gravatas importadas, finas camisas e cabeleiras impecáveis, ao lado de tudo isso, havia notícias relevantes, em primeira mão, de permeio com expressões em inglês e francês, típicas do grande monde. Nos anos da ditadura, por exemplo, amiga minha, professora universitária, ligada a um grupo clandestino que andava às voltas com a utopia de alijar os militares do poder pelas armas, recebera como tarefa revolucionária ler crônicas sociais nos diários locais. Ler só, não. Descobrir o que as entrelinhas escondiam, a fim de desvendar segredos do poder. Era época de censura braba, capado o direito à informação sobre contestadores do regime nascido do golpe de 1964. Ocorre que os cronistas sociais, para exaltar ações e eventos promovidos pelo “sistema”, tinham acesso franco aos militares. Confiáveis, os babões acotovelavam-se à porta dos quartéis. Aí estava a mina. Às vezes, simples registro de banquete cheio de estrelas gemadas revelava sinais de ligações de empresários com a caserna. Com sorte, argúcia e imaginação, descobriam-se dados da estratégia e das táticas de operação das forças armadas para destruir os resistentes à ditadura.

Ignorante nessas táticas sutis da guerrilha, eu não conseguia imaginar como um poder tão fechado e cioso de sua invulnerabilidade deixava, entre sorrisos estudados, informações úteis aos pequenos e fracionados contingentes de guerrilheiros urbanos e rurais, teimosos em lutar pelos seus ideais. Vez por outra, eu arriscava comentários dessa natureza, mas minha amiga, disfarçando um riso de mofa, com ar conspiratório, não abria o jogo. Tratava-se de tarefa clandestina, portanto, cercada de cautela, de acordo com o manual de segurança da guerrilha, assim justificava seu motismo.

Era outro tempo.

Hoje em dia, o selfie desmoraliza a crônica social. Ao expor o riso, a alegria, a careta, a língua nas redes sociais, o selfie jogou no lixo do atraso o riso das bacanas. Só falta o caminhão carregar para o lixão do anacronismo.

Por/Francisco Frassales Cartaxo

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