Vozes das ruas

A voz das ruas é plural. Ela nos chega em diferentes tons. Uns cantam com afinação, outros nem tanto, esbravejam, gritam, berram feito cabrito desmamado ou urram em jeito de vaca. As vozes das ruas são mais variadas do que o verde, o amarelo, o azul, o branco, o preto e todas as cores pintadas nos corpos, em cartazes e caras pintadas, em bandeiras dos manifestantes de domingo, 15 de março. Cores e vozes diferenciadas, igualzinho à população brasileira na diversidade religiosa, étnica, política, ideológica, partidária. Diversidade exposta em vias públicas, nas varandas e janelas de cidades de todas as regiões do Brasil.

Impossível, portanto, carimbar o protesto de domingo passado com um rótulo, uma palavra, uma motivação ou um objetivo único. Vozes e cores que representam a sociedade brasileira de nossos inseguros dias de incerto futuro.

Aquele mundão de gente estava nas ruas por muitas razões.

Mas todos os motivos cabiam no protesto. Havia quem priorizasse o impeachment de Dilma, seguido do raivoso “fora PT”. Havia quem concentrasse seu olhar em coisa mais concreta como a ladroeira na Petrobras ou sonhasse com nova intervenção militar ou reforma política capaz de inibir a promiscuidade entre empresas, partidos e governo. E havia também motivações individuais ou de grupos sociais. Professora revoltada com o piso de fome. Aposentado empobrecido: há15 anos recebia o equivalente a dez salários mínimos e hoje apenas três. Desempregados em desespero. Estudantes voltaram a pintar a cara. Todos requerem combate sério à corrupção. Sério e ágil na apuração, julgamento e punição dos corruptos. Corrupto no lugar certo: cadeia.

E Dilma? Segunda-feira, dia16, na entrevista coletiva, a presidente da República falou assim sobre corrupção:

“Esta discussão não leva a nada. A corrupção não nasceu hoje. Ela não é só uma senhora bastante idosa neste País, como ela não poupa ninguém. Ela não poupa. Pode estar em tudo quanto é área, inclusive no setor privado. Vamos lembrar, perfeitamente, do que aconteceu na crise de 2008 e 2009, quando pelo menos uma das questões foi a fraude bancária. Então, essa questão da corrupção é algo que nós temos que tratar como sendo parte. Ela é parte, né? O dinheiro tem esse poder corruptor. Nós temos de ter vigilância, nós temos de ter instituições, nós temos de ter legislação para impedir que ocorra. Agora, nós vamos achar que tem qualquer… qualquer que seja, qualquer segmento acima de qualquer suspeita. Isso não existe. E acho mais, acho que o combate à corrupção começa também, eu acho, através de um processo educacional. O fato de você não querer ganhar vantagem em tudo na sua vida. O fator de você valorizar o trabalho, valorizar a pessoa que conquistou as coisas com seu próprio valor. O fator de você não… Eu sei que é diferente. É diferente em gradação e qualidade. Mas uma pessoa não pode cometer pequenas infrações, porque ela cria um ambiente de permissividade. Então, vamos tratar essa questão da  corrupção de uma forma mais efetiva para poder combater melhor.”

Entendeu? O leitor entendeu? Não inventei o texto. Transcrevi dos jornais. Esta joia de resposta da presidente Dilma sobre corrupção, talvez entre no próximo ENEM. Faz sentido. Não deixa de ser educacional. Antes, porém, sua fala precisa ser interpretada. Se for possível. A vozes das ruas exigem, tamém, mais clareza de quem nos governa.

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