‘Não há como flexibilizar o isolamento’, diz gerente da Vigilância Epidemiológica

O gerente da Vigilância Epidemiológica afirma que é preciso fazer mais testes para monitorar melhor a propagação do vírus FOTO: JOSÉ LEOMAR

Diante de um cenário de expansão dos casos do novo coronavírus no Estado, principalmente nos bairros periféricos de Fortaleza, o médico, pesquisador, professor de Medicina da Unifor e gerente da Célula de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza, Antônio Silva Lima Neto, afirma que não há como flexibilizar o isolamento nesse momento. Para Lima, não existe outra medida possível. O pesquisador destacou ainda a necessidade de aumentar o número de leitos para poder começar a pensar em reabrir a Cidade, assim como expandir a capacidade de testagem e ser possível fazer um monitoramento de possíveis casos. Confira a entrevista concedida por ele ao Sistema Verdes Mares.

Amanhã vence o decreto do governador Camilo Santana de isolamento social na cidade. O senhor acredita que ele deveria ser prorrogado?

De forma pessoal, acho que não há como você flexibilizar o isolamento. Não tem outra medida possível, é um momento de expansão dos casos, de interiorização. O Governo pode trabalhar com outros dados. Tenho ótimo contatos com os secretários e pensamos muito parecido nisso. Não há elementos que possam flexibilizar isso. Por exemplo, se formos discutir Fortaleza, os casos precisam estar diminuindo, as internações e mortes também. É indiscutível isso. A segunda questão é que tenhamos leito, caso contrário não poderemos abrir. O terceiro ponto é a testagem, estamos mais perto. Estamos recebendo e podem ser utilizados para ter esse monitoramento de possíveis novos casos.

Qual é a previsão para a próxima semana em Fortaleza com relação à pandemia do coronavírus?

Acho que as duas próximas semanas são de aumento de casos. Não temos sinal de diminuição agora. Ainda é uma curva em progressão linear, mas está aumentando todo dia. Em relação às áreas afetadas, temos a possibilidade abrindo grandes flancos de proliferação. Um seria no Grande Pirambu e Barra do Ceará. Outra seria o Bom Jardim e Granja Lisboa e Grande Jangurussu. Também temos do Vicente Pinzón ao Cais do Porto. Estamos caminhando nas próximas semanas para que tenhamos o pico para o fim de abril e início de maio. Epidemia é uma questão dinâmica, tudo pode mudar amanhã.

Como está o cenário de epidemiologia hoje?

Estamos em um momento de dispersão espacial do vírus. Saiu das regiões centrais. É visível a circulação nos bairros de maior IDH para áreas de periferias, bairros mais vulneráveis. Isso trouxe uma preocupação extra, porque é um momento dos pacientes exclusivos do Serviço Único de Saúde (SUS). Acho que uma das coisas dessa epidemia é desnudar a importância do sistema público. De ter mais leitos e acesso. É o que mais ou menos esperávamos desde que o decreto estadual de isolamento foi emitido em março. Nós temos uma aceleração de casos, mas consideramos essa progressão como linear. Provavelmente, pelo isolamento que se deu. Poderia ser maior os casos e as mortes, se isso não tivesse sido feito precocemente.

É possível inferir que há uma quantificação menor de casos confirmados nos bairros nobres, como Meireles, Aldeota e Cocó ou ainda se espera uma explosão para os próximos dias?

Agora está se movimentando ao Vicente Pinzón e ao extremo da Barra do Ceará. Nesse momento, acho que tivemos uma redução, mas não posso lhe garantir que, ao afrouxar as medidas de isolamento hoje, não teremos um repique. O isolamento foi uma iniciativa importante e ainda tem gente que pode se infectar.

Durante a semana, o secretário da Saúde do Ceará, Dr. Cabeto, afirmou que está trabalhando com a perspectiva de que haja 250 mortes/dia na Capital a partir do dia 5 de maio. Você acredita que chegaremos a esse nível?

Existem muitos modelos. O secretário Cabeto se baseou em algum tipo de modelo, em que você trabalha com os piores cenários. Não tive acesso particularmente ao dele. Não conheço o modelo que o secretário se referiu. Nós não trabalhamos com a ideia de 250 mortes diárias. Não diria que isso seja o mais provável pelos modelos que a SMS segue. O número de mortes diárias vai variar de acordo com a capacidade de responder assistencialmente.

De acordo com o boletim da SMS divulgado na quarta-feira (15), há uma alta taxa de letalidade da Covid-19 em bairros como Barra do Ceará e Jangurussu. O que explica esse número, uma vez que os casos confirmados foram poucos?

Essa é uma das grandes preocupações nossa hoje. Desde que esse óbito seja de um paciente que contraiu vírus naquele bairro, isso significa que já existe circulação viral moderada a intensa. Um óbito é um marcador de transmissão sustentável. Grande Pirambu, Cristo Redentor, aquela confluência, por que preocupa? Porque temos óbitos. As UPAs estão trabalhando com 40% de atendimento, igual ao mesmo período do ano passado. As emergências em geral não estão lotadas, ao contrário das UTIs e enfermarias. Isso significa que estamos capturando os casos graves, mas estamos testando pouco para que a gente conheça melhor a situação epidemiológica dentro desses bairros como Vicente Pinzón, em que tem mortes, mas não tem casos. Um grande trunfo da Coreia e de outros países, foi testar muito e tentar isolar os pacientes.

Por que há maior letalidade na periferia enquanto Meireles e Aldeota apresentam o maior número de casos confirmados?

Se você pegar o Meireles, no último informe, tinha sete óbitos. Tinha mais de 133 casos. Lá, a testagem no início foi alta. Se comparar com Barra do Ceará é mais ou menos dez vezes mais testes do que na Barra. Como você testou muito mais no Meireles, o seu denominador é muito maior. Essa população foi a primeira a ter acesso aos hospitais e às testagens. Não estou querendo lhe dizer que a taxa de mortalidade da população mais vulnerável possa ser maior. Pode ser que seja maior, por várias razões que vão desde acesso, poderia ser mais rápido e é mais lento por estar numa fila maior. A nossa população de menor poder aquisitivo, dos bairros vulneráveis, tem maior prevalência de comorbidades. Embora sejam mais jovens.

O Ceará já teve 3,4 mil mortes em 2020 por pneumonia e insuficiência respiratória. Os números de influenza e outros vírus estão maiores neste ano?

Não encontrei excessos de mortes em comparação com anos anteriores de janeiro a março. Analisei o trimestre, mesma base no Brasil todo, não vi diferença. Existem muitas doenças respiratórias que são graves. A nossa vigilância não é só Covid-19, é de síndrome de respiração aguda e grave. É importantíssima que continuemos tratando como sempre fizemos

A gente viu neste ano um aumento expressivo com relação ao ano passado de dengue, de quatro vezes mais entre os dois anos. Por que ela aumentou?

Nós tivemos alguns casos importantes, embora não contabilizemos muitas mortes. Nossa preocupação era a introdução do sorotipo II. No ano passado, tivemos a maior epidemia de dengue do País. No entanto, não tivemos muitos casos no Nordeste. Estávamos nos preparando para a introdução do sorotipo II, que estava há mais de dez anos sem circular em Fortaleza. Isolamos alguns casos de Dengue 2, mas na maioria dos pacientes isolamos o vírus Dengue 1. Hoje, de fato, temos quatro vezes mais casos que no ano passado, mas ficaram concentrados na Regional VI e um pouco na V. Tanto que tomamos a decisão de usar o fumacê na região de Messejana e Grande Jangurussu.

 

Por João Lima Neto/Cadu Freitas, metro@svm.com.br

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